
BOM DIA
A bola não entrou em campo nos últimos dias por aqui, mas isso não significa que o futebol brasileiro ficou estagnado. Muito pelo contrário.
Uma decisão tomada bem longe das quatro linhas movimentou torcida e imprensa nas redes sociais. O motivo você já deve saber: a redução gradual da presença de atletas estrangeiros nos nossos campeonatos.
Então, antes de formular uma opinião baseada apenas em achismos, nada melhor do que seguir o velho e poderoso ditado: contra números, não há argumentos.
Abaixo, você poderá a acompanhar mais uma belíssima análise do @DataFut, um dos principais scouts do país.
BIG STORY
Menos estrangeiros = mais jovens?

(Imagem: Marcos Ribolli)
Há algumas semanas, mostramos aqui um dado que contrariava uma impressão bastante comum: o aumento de estrangeiros não parece ser o principal responsável pela queda no uso de jovens no Brasileirão.
Pois bem. Agora teremos a oportunidade de testar essa tese no caminho contrário.
No início da semana passada, CBF e clubes das Séries A e B aprovaram a redução gradual do limite de estrangeiros relacionados por partida: dos atuais 9 para 8 em 2027, 7 em 2028, 6 em 2029 e 5 em 2030 — o mesmo número que vigorava até 2022.
Um dos principais argumentos é justamente abrir mais espaço para os jovens brasileiros.
Parece fazer sentido: se entram menos estrangeiros, sobram mais vagas para a base.
Mas será que é isso que vai acontecer?
Primeiro, o tamanho do problema
Nunca houve tantos estrangeiros jogando o Brasileirão.
Nesta temporada, eles representam 28,5% de todos os minutos disputados, recorde da série histórica.
Ao mesmo tempo, o campeonato envelheceu.
Jogadores de 30 anos ou mais concentram 35% da minutagem, enquanto aqueles com até 24 anos ficam em apenas 22,2%.
O contraste fica ainda maior nos extremos: atletas de 34+ jogam 2,4 vezes mais que os sub-21.
Temos, portanto, dois fenômenos acontecendo simultaneamente: mais estrangeiros e menos jovens.


A questão é descobrir se uma coisa realmente provoca a outra.
A nova regra parece maior do que realmente é
Vamos transformar os 28,5% em algo mais fácil de visualizar.
Se existem 11 jogadores em campo, esse percentual equivale a pouco mais de três estrangeiros por equipe, em média.
Ou seja, mesmo quando o limite chegar a cinco, em 2030, ele ainda estará acima da quantidade média de estrangeiros que os clubes utilizam simultaneamente hoje.
O impacto maior deve aparecer na montagem e na rotação dos elencos, principalmente entre os times que acumulam muitos jogadores de fora.
E aí as diferenças são enormes.
Cinco clubes têm pelo menos 40% de sua minutagem concentrada em estrangeiros: Athletico-PR (46,8%), Internacional (45,1%), Palmeiras (42,5%), Flamengo (40,2%) e Grêmio (40,1%).
No outro extremo está o Mirassol: 99% dos minutos são de brasileiros.

A quantidade de jogadores utilizados também varia bastante. O Botafogo colocou 16 estrangeiros diferentes em campo na temporada; Internacional e Grêmio, 13; Vasco e São Paulo, 12.
O Mirassol utilizou apenas um.
Em outras palavras: a mesma regra terá impactos completamente diferentes dependendo do clube.
Mais estrangeiros significa menos jovens?
Aqui chegamos ao ponto mais importante.
Se estrangeiros estivessem necessariamente ocupando o espaço da base, seria razoável esperar que os clubes que mais utilizam jogadores de fora fossem também aqueles que menos colocam jovens em campo.
Os números mostram que não é tão simples assim.

O Athletico-PR possui a maior minutagem estrangeira do Brasileirão e, ao mesmo tempo, é o clube que mais utiliza jogadores sub-21: 18,6%.
Logo atrás entre os jovens aparece o Botafogo, com 18% — justamente o clube que utilizou mais estrangeiros diferentes nesta temporada.
Cruzeiro (15,9%) e Atlético-MG (10,8%) completam o Top 4 de utilização de sub-21.
Agora olhe para o outro extremo.
Mirassol e Chapecoense estão entre os clubes mais brasileiros do campeonato e praticamente não utilizam sub-21: 0% e 0,7%, respectivamente.
Flamengo e Fluminense também aparecem no fim desse ranking, ambos com 0,9%, apesar de possuírem muito mais estrangeiros.
Entre os oito clubes que mais utilizam estrangeiros, a média de minutagem sub-21 é de 7%. Nos outros 12, cai para 4,6%.
Isso não significa que estrangeiros façam os clubes utilizarem mais jovens — correlação não é causa.
Mas mostra algo importante: ter muitos estrangeiros não impede um clube de utilizar sua base.
Existem quatro Brasileirões diferentes
Quando cruzamos idade média e presença estrangeira, fica ainda mais fácil visualizar isso.

De um lado estão Botafogo, Vasco, Palmeiras, Grêmio, Athletico-PR, Atlético-MG e Bahia: elencos relativamente jovens e, ao mesmo tempo, bastante estrangeiros;
No extremo oposto aparecem Mirassol, Remo, Chapecoense e Coritiba: times mais veteranos e majoritariamente brasileiros;
Há ainda clubes jovens e nacionais, como RB Bragantino, Cruzeiro, Vitória, Corinthians e Santos;
E equipes mais veteranas e estrangeiras, como Flamengo e Fluminense.
E é justamente aqui que aparece uma limitação da nova regra.
Ela atinge diretamente alguns dos clubes que conseguem combinar estrangeiros e jovens, mas praticamente não interfere naqueles que possuem elencos veteranos mesmo utilizando poucos jogadores de fora.
Reduzir estrangeiros, portanto, não significa automaticamente reduzir a idade dos elencos.
Como chegamos até aqui?
O aumento de estrangeiros não começou quando a CBF ampliou o limite.
Entre 2017 e 2021, eles representavam aproximadamente 9% a 10,5% dos minutos do Brasileirão.
Em 2022, ainda com o teto de cinco estrangeiros, esse percentual já havia subido para 13,7%.
Depois vieram as mudanças na regra — sete relacionados em 2023 e nove a partir de 2024 — e o movimento acelerou: 19,5% → 23% → 25,9% → 28,5%.
Em cinco temporadas, a participação estrangeira praticamente triplicou.

Isso importa porque mostra que voltar ao limite de cinco não significa voltar ao Brasileirão de 2021. O mercado dos clubes também mudou.
E mudou especialmente entre os jovens.
O estrangeiro também ficou mais jovem
Talvez este seja o dado mais importante para entender o que pode acontecer a partir de 2027.
Em 2017, estrangeiros representavam apenas 2,6% da minutagem entre jogadores de até 20 anos. Hoje, já são 20,3%.
Entre atletas de 21 a 23 anos, o salto foi de 7,5% para 30,7%.
Ou seja, os clubes brasileiros não passaram simplesmente a importar mais jogadores.
Passaram também a importar jovens.
Argentinos, uruguaios, colombianos e outros sul-americanos passaram a ocupar um espaço que antes era muito mais concentrado em brasileiros.
E é justamente aí que a redução pode produzir seu efeito mais interessante.
Quem vai perder espaço?
Imagine um clube que hoje possui 10 ou 12 estrangeiros no elenco.
Quando o limite cair, dificilmente a primeira escolha será abrir mão daquele titular consolidado de 27 ou 28 anos.
A tendência é proteger os jogadores considerados mais importantes e reduzir as apostas.
E muitas dessas apostas hoje são jovens estrangeiros.
É aí que pode surgir uma oportunidade real para a base brasileira.
Se um clube deixar de contratar um argentino de 20 anos ou um uruguaio de 22 para preencher aquela vaga com um jogador formado em casa, a regra terá produzido exatamente o efeito desejado pela CBF.
Principalmente em equipes que já possuem uma cultura de utilização da base.
Só existe um grande “mas”.
Nada obriga essa vaga a ficar com um garoto
Esse é o ponto que impede uma conclusão simples.
A faixa que mais perdeu espaço nos últimos anos foi justamente a de 21 a 23 anos — idade em que muitos dos principais talentos brasileiros já estão sendo negociados ou tentando se estabelecer na Europa.
A nova regra não muda isso.
E existe outro dado importante: 82,2% dos minutos dos jogadores de 34 anos ou mais pertencem a brasileiros.
Portanto, um clube pode trocar um estrangeiro de 25 anos por um brasileiro de 19…
…Mas também pode trocá-lo por um brasileiro de 32.
A regra muda a quantidade, não necessariamente a escolha
No fim, voltamos à pergunta que abriu esta análise.
Menos estrangeiros significa mais jovens brasileiros?
Pode significar.
A redução tende a diminuir o espaço para jovens estrangeiros e pode abrir oportunidades para jogadores formados no Brasil, principalmente nos clubes que já trabalham dessa maneira.
Mas ela não garante isso.
As vagas também podem ser preenchidas por brasileiros mais experientes. Clubes podem recorrer a naturalizações. E equipes que hoje pouco utilizam a base não serão obrigadas a mudar sua estratégia simplesmente porque o limite caiu.
É por isso que reduzir estrangeiros pode ajudar, mas dificilmente resolve sozinho o envelhecimento do Brasileirão.
A partir de 2027, teremos uma espécie de experimento acontecendo diante dos nossos olhos.
A cada temporada, uma vaga estrangeira desaparecerá até voltarmos às cinco de 2022.
Se, nesse processo, a minutagem dos jovens brasileiros crescer, a CBF terá conseguido parte do efeito que procura.
Se os estrangeiros diminuírem e os jovens continuarem no banco, ficará cada vez mais difícil colocar a culpa no passaporte.
OPINIÃO DO LEITOR
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