
BOM DIA
O Brasileirão nunca teve tantos jogadores estrangeiros — e, ao mesmo tempo, nunca deu tão pouco espaço aos mais jovens.
À primeira vista, a conclusão parece óbvia: quanto mais atletas de fora chegam, menos oportunidades sobram para os garotos da base. Mas os números mostram que essa relação está longe de ser tão simples.
Em mais uma análise feita em parceria com o @datafut, um dos maiores nomes de scout do país, cruzamos idade, nacionalidade e minutagem dos jogadores da Série A para entender como o perfil dos elencos mudou nos últimos anos.
O resultado revela um campeonato mais velho e mais internacional, mas mostra que culpar os estrangeiros pela queda dos jovens pode ser uma explicação incompleta.
BIG STORY
Os estrangeiros estão tirando espaço dos jovens no Brasileirão?

A resposta mais intuitiva provavelmente é sim.
Afinal, nunca tivemos tantos estrangeiros no futebol brasileiro. Ao mesmo tempo, nunca utilizamos tão pouco os jogadores mais jovens.
Parece uma relação simples de causa e efeito: entram os estrangeiros, saem os garotos da base.
Os números, porém, contam uma história muito mais complexa…
Primeiro, o Brasileirão está ficando mais velho
Esse é o ponto de partida para entender toda a discussão.
Em 2020, a idade média dos jogadores utilizados no Brasileirão era de 27,4 anos. Hoje, já está em 28,5.

Há 10 anos, jogadores de até 24 anos respondiam por 32,6% dos minutos disputados. Nesta temporada, representam apenas 21,9%, a menor participação na última década.
No caminho contrário, os veteranos ganharam espaço. A fatia de atletas com 34 anos ou mais saltou de 8,6% para 13,2% no mesmo período.
Na atual edição, jogadores de 34+ têm 2,4x mais minutos no Brasileirão do que atletas sub-21.
Em 2017, menos de 60% dos minutos estavam concentrados entre jogadores de 25 e 33 anos. Hoje, essa faixa representa aproximadamente 65% de todos os minutos disputados na Série A.
Em outras palavras: o Brasileirão envelheceu.
Mas isso ainda não responde quem ocupou o espaço deixado pelos jovens.
Ao mesmo tempo, nunca tivemos tantos estrangeiros
Aqui entra a segunda transformação.
O limite de estrangeiros relacionados por partida subiu rapidamente nos últimos anos: passou de cinco para sete e, depois, para nove jogadores.
Paralelamente, a participação deles disparou.
Desde 2021, a minutagem de estrangeiros no Brasileirão saiu de aproximadamente 9% para 28,4%.

Percentual de estrangeiros e de brasileiros em cada edição do Campeonato Brasileiro
E há uma correlação interessante com a parte de cima da tabela. Três das cinco equipes com maior percentual de estrangeiros ocupam as três primeiras colocações do campeonato. Em contrapartida, as quatro mais “brasileiras” estão lutando contra o rebaixamento (você vai ver mais abaixo).
Mas há um detalhe fundamental para esta discussão: esses estrangeiros não são, em sua maioria, veteranos ocupando o lugar dos garotos.
A faixa etária com maior presença de “gringos” no campeonato é justamente a de 21 a 24 anos: 36,1% dos minutos dessa categoria pertencem a jogadores de fora do Brasil.
Entre os sub-21, os estrangeiros representam 21,7% — contra apenas 2,6% em 2017.
Já entre os atletas de 34 anos ou mais acontece o contrário: 83% da minutagem ainda pertence a brasileiros.
Isso ajuda a explicar uma mudança importante no mercado brasileiro.
Durante décadas, o Brasil foi principalmente um país que formava jovens e importava jogadores mais experientes.
Agora, os clubes também passaram a buscar jovens em mercados externos, principalmente o sul-americano.
O ciclo do jogador brasileiro mudou
É aqui que as peças começam a se encaixar.
Os grandes talentos brasileiros continuam surgindo. O problema é que muitos permanecem cada vez menos tempo no país antes de serem vendidos para o exterior.
Quando essas vagas aparecem, os clubes precisam repor o elenco.
E uma das soluções encontradas foi buscar jogadores estrangeiros de 21 a 24 anos que ainda não chegaram ao auge e podem, inclusive, gerar uma venda futura.
Assim, nossos clubes passaram a conviver com um ciclo curioso:
O jovem brasileiro surge → é vendido → parte da reposição vem de jovens estrangeiros → e jogadores brasileiros mais experientes retornam ao país no fim da carreira.
É por meio dessa lógica que conseguimos entender por que temos, simultaneamente, mais estrangeiros e um campeonato mais velho.
Mas ainda falta responder à principal pergunta.
Afinal, os estrangeiros tiraram o espaço dos sub-21?
Não na proporção que poderíamos imaginar.
Antes da ampliação do limite de estrangeiros, desconsiderando os anos atípicos da pandemia, jogadores sub-21 respondiam por aproximadamente 6,7% da utilização.
Depois da mudança para nove estrangeiros, esse percentual caiu para 5,1%.
Houve redução.
Mas ela é pequena diante da explosão da participação estrangeira no mesmo período.
Outras faixas sofreram mudanças bem maiores.
A participação dos jogadores de 21 a 24 anos caiu de 24,4% para 18,8%, enquanto atletas de 25 a 29 anos subiram de 36,9% para 41,3% e os de 34+ passaram de 10,1% para 12,6%.

Ou seja, há dois movimentos acontecendo ao mesmo tempo: o Brasileirão está ficando mais estrangeiro e também está ficando mais velho.
Mas os dados não indicam que o primeiro fenômeno, sozinho, explique o segundo.
E os próprios clubes ajudam a provar isso.
20 clubes, 20 maneiras diferentes de montar um elenco
Quando saímos da média do campeonato e olhamos equipe por equipe, a relação entre estrangeiros e jovens fica ainda menos direta.
O Athletico Paranaense é o melhor exemplo.


O Furacão possui a maior participação estrangeira da Série A, com 48,6% da minutagem, e, ao mesmo tempo, é o clube que mais utiliza jogadores sub-21.
Se estrangeiros necessariamente tirassem espaço dos jovens brasileiros, seria difícil explicar esse caso.
Palmeiras, Botafogo e Grêmio também combinam elencos relativamente jovens com forte presença estrangeira.
Do outro lado aparecem clubes como Remo, Chapecoense e Mirassol, que utilizam poucos estrangeiros, mas possuem elencos mais envelhecidos.
O Mirassol é o caso mais extremo: tem menos de 2% de minutagem estrangeira e, ao mesmo tempo, a maior idade média e a menor participação de jovens do campeonato.
Existem ainda outros dois modelos de destaque.
Cruzeiro, Corinthians, Vitória e RB Bragantino combinam elencos mais jovens com menor dependência de estrangeiros.
Já Flamengo, Fluminense e São Paulo aparecem no grupo de equipes mais veteranas e com participação relevante de jogadores de fora.

Eixo X: Idade média de todo o elenco | Eixo Y: % de estrangeiros.
No fim, não existe um único “modelo brasileiro” de construção de elenco. Cada clube utiliza as nove vagas de maneira diferente.
Então, qual é o verdadeiro problema?
Talvez este seja o ponto mais importante de toda a discussão.
O aumento de estrangeiros e a diminuição de jovens são dois fenômenos reais. Mas, como vimos nesta análise, isso não significa que um seja necessariamente responsável pelo outro.
A discussão passa menos pelo número limite de jogadores de fora do Brasil e mais pela maneira como cada diretoria decide construir seu elenco.
Estrangeiros podem ocupar espaço de jovens? Claro.
Mas também podem ocupar o espaço de brasileiros de 25, 28 ou 32 anos.
A regra apenas oferece aos clubes mais possibilidades de contratação.
Quem decide quem perde espaço é cada clube.
Na prática, talvez estejamos olhando para a pergunta errada.
Em vez de perguntar apenas “os estrangeiros estão tirando espaço dos jovens?”, o melhor questionamento seria:
Por que, independentemente da nacionalidade de quem chega, os clubes brasileiros estão utilizando cada vez menos jogadores jovens?
Essa resposta provavelmente diz muito mais sobre o atual momento do futebol brasileiro do que o passaporte de quem entra em campo.
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