BOM DIA

Neste domingo, começamos a nossa primeira edição especial de domingo em parceira com o @datafut, um dos perfis mais conhecidos — e inteligentes — da internet brasileira quando o assunto é futebol nacional e internacional.

E pode esperar algo diferente do que você está acostumado a encontrar por aqui durante a semana…

A cada domingo, vamos mergulhar nos principais clubes da Série A e nas grandes ligas europeias para ir além do resultado, da tabela e dos comentários que você já encontra em qualquer lugar.

O objetivo é simples: mostrar o além do óbvio.

Usando dados, contexto e análise, queremos explicar o que realmente está acontecendo dentro de campo — e entregar aqueles detalhes que fazem você enxergar uma partida de um jeito diferente depois da leitura.

Para inaugurar esse novo projeto, começamos com um dos casos mais curiosos do futebol brasileiro na atualidade: o Internacional de Paulo Pezzolano.

Um time que segue vivo na briga pelo título da Copa do Brasil, mas que, ao mesmo tempo, precisa lutar rodada após rodada para se afastar da zona de rebaixamento do Brasileirão.

Como o mesmo Inter consegue conviver com realidades tão diferentes?

É isso que os números ajudam a explicar.

BIG STORY

O dilema Colorado no Brasileirão

É impossível falar do Internacional nesse Brasileirão sem falar do protagonista da equipe nesta temporada. E não, não estamos falando de um centroavante artilheiro ou de um goleiro milagroso. Estamos falando do técnico Paulo Pezzolano.

O uruguaio chegou ao clube gaúcho no início deste ano com uma clara missão: construir um time mais competitivo do que o da temporada passada, quando a equipe só escapou do rebaixamento na última rodada da competição.

“E ele está conseguindo cumprir o objetivo?” Em alguns momentos, parece que sim, mas a verdade é que o time ainda está preso a um paradoxo de estilo. Alguns dados da OPTA nos ajudam a entender melhor.

(Imagem: Ricardo Duarte | Internacional)

Posse de Bola: O Colorado precisa dela?

Das 21 partidas disputadas no Brasileirão, o Inter teve 10 jogos acima de 50% de posse de bola e 11 abaixo desse patamar.

Nos jogos com posse superior a 50%, o aproveitamento é de apenas 10% dos pontos disputados (0V 7D 3E) — um retrospecto que mostra uma equipe muito pouco competitiva.

Os números de conversão de finalizações ajudam a explicar o porquê dessa situação: apenas 2,67% das finalizações viraram gol nesses jogos, e o Colorado marcou 5 gols em 18,4xG — uma eficiência extremamente baixa.

Os números desse mapa reforçam a ineficiência. Nestas 10 partidas, o Inter acumulou 187 chutes e 18,4xG, mas balançou as redes apenas 5 vezes.

  • O aproveitamento das melhores oportunidades (Grandes Chances) é ainda pior: de 25 grandes chances, somente 2 viraram gol — uma taxa de conversão de grandes chances de apenas 8%, um número baixíssimo para qualquer padrão competitivo.

Mas vamos olhar o outro lado da moeda. Nos 11 jogos em que o Inter teve menos de 50% de posse, o aproveitamento salta de 10% para 51,5% dos pontos (5V 2E 4D), com taxa de conversão das finalizações de cerca de 13,1%.

A eficiência ofensiva também se inverte: 18 gols em 15.8xG, um saldo positivo que contrasta diretamente com o déficit registrado nos jogos em que tem mais posse de bola.

Com 138 chutes — médias de 12.5 finalizações contra 18.5 nos jogos com mais de 50% de posse de bola — e 15.8xG, o Inter marcou 18 gols.

  • Além disso, a conversão de grandes oportunidades também subiu: das 25 grandes chances nesse recorte, 12 resultaram em gol, uma taxa de conversão de 48%.

Essa diferença de conversão, dependendo do estilo de jogo da equipe, é algo que ajuda a explicar o motivo do clube estar na 17ª colocação no Campeonato Brasileiro, mesmo sendo uma das equipes que mais criam chances na competição.

Falamos da equipe, mas como estão os jogadores?

Olhando individualmente às finalizações, conseguimos identificar quais jogadores estão "ajudando" o Internacional a chegar nessa situação.

O Inter não tem nenhum atleta entre os TOP-25 em taxa de conversão do Brasileirão; o primeiro jogador colorado na lista geral é Alan Patrick (3/22 — 13,64%).

  • O meia também é o único jogador do TOP-10 em chances criadas que não registrou nenhuma assistência, apesar de somar 40 chances criadas no torneio.

(Imagem: Maxi Franzoi | AGIF)

O jogador com a melhor conversão de grandes chances do Internacional é Carbonero (4/7 — 57,1%, considerando o mínimo de 5 grandes chances). Entretanto, os dois jogadores com mais grandes chances do Inter na competição são os centroavantes Alerrandro (3/13 — 23,1%) e Borré (2/10 — 20%), este último já fora do clube.

Entre os 9 jogadores que tiveram ao menos 10 grandes chances na competição, a dupla aparece no TOP-3 de piores aproveitamentos, atrás apenas do cruzeirense Néiser Villarreal (2/14 — 14,3%).

  • A dupla colorada também figura entre os 5 piores em eficiência ofensiva (Gols–xG) do campeonato: Rafael Borré se despediu do clube com 2 gols em 5,62 xG, enquanto Alerrandro soma 3 gols em 5,81 xG na competição.

  • Eles têm, respectivamente, a 2ª e a 4ª piores eficiências ofensivas do Brasileirão.

Apesar dos centroavantes do Colorado terem centralizado a eficiência negativa, não são apenas eles: dos 24 atletas do Inter que registraram ao menos 1 finalização no Campeonato Brasileiro, apenas três jogadores possuem uma eficiência positiva (Bernabei, Braian Aguirre e Ronaldo).

Esses números ajudam a explicar que o problema do Internacional é verdadeiramente coletivo, apesar de termos alguns jogadores que centralizam mais essa deficiência, praticamente todos os jogadores da equipe estão com uma eficiência negativa.

O Beira-Rio deixou de ser uma fortaleza

Antes de qualquer conclusão precipitada, vale um esclarecimento importante. A tentação é pensar que os jogos com mais posse coincidem com os jogos em casa, mas não é bem assim.

A distribuição é praticamente idêntica: 5 como mandante / 5 como visitante nos jogos com mais de 50% de posse, e 6 como mandante / 5 como visitante nos jogos com menos. Ou seja, o estilo do Inter não depende de onde a bola rola, e sim de como a equipe decide jogar naquela partida específica.

Curiosamente, o Inter tem um índice de posse menor jogando em casa do que fora, mas, ainda assim, apresenta um saldo de Gols Esperados (xG criado – xG cedido) superior como mandante.

Inclusive, sendo uma das três equipes com melhor saldo em casa na competição, e dentre as 7 equipes com maior saldo em gols esperados, o Colorado é o único com média de posse de bola inferior a 50%.

GRÁFICO DE MOVIMENTO: O PONTO REPRESENTA A POSIÇÃO DO TIME NO GRÁFICO CONSIDERANDO APENAS JOGOS COMO VISITANTE; OS ESCUDOS MOSTRAM A POSIÇÃO CONSIDERANDO OS JOGOS COMO MANDANTE.

Nessa edição do campeonato brasileiro, o aproveitamento do Inter jogando em casa é inferior ao registrado em edições anteriores.

O Colorado tem apenas 36,3% de aproveitamento no Beira-Rio no BR-26 — o pior aproveitamento como mandante de uma edição de pontos corridos na história recente.

O caminho está traçado?

(Imagem: Ricardo Duarte | Internacional)

O Internacional de Pezzolano vive um dilema sobre sua identidade de jogo. Um estilo mais reativo, que cede a posse e ataca nos espaços (principalmente com Bernabei), vem entregando resultados bem melhores em comparação ao estilo de maior posse de bola.

Nesse formato com menos posse, a equipe converte suas oportunidades com muito mais eficiência do que no estilo de maior controle de bola. Ainda assim, é um estilo de futebol que a torcida, acostumada com glórias, recebe com desconfiança.

E, como mostramos aqui, esse "passo a mais" no estilo de jogo já foi tentado diversas vezes nesta temporada, mas o time não está conseguindo converter as chances quando joga assim.

Diante do formato atual do futebol brasileiro e da situação administrativa do clube, se o objetivo é montar uma equipe competitiva a curto prazo, os números sugerem que esse é, hoje, o melhor caminho para o Colorado: jogar um futebol mais reativo e aproveitar os espaços que o adversário permite.

Talvez esse seja o segredo para a equipe se manter na elite do nosso futebol e, quem sabe, sonhar com coisas grandes na Copa do Brasil.

OPINIÃO DO LEITOR

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